O consumo real é a distância rodada dividida pelos litros que entraram no tanque entre dois abastecimentos até a desligada automática do bico. Não o número do painel — ele costuma mostrar até 6% a mais do que o carro realmente bebe — nem a cifra do Inmetro, que descreve um teste de laboratório, não a sua rua. Meça por três ou quatro tanques e divida o total de quilômetros pelo total de litros: um único tanque pode variar 5% só pelo ponto em que a bomba desligou. Um carro que fica a 10–15% do número combinado do Inmetro é um carro saudável com um motorista normal — e, se o carro é flex, vale conferir isso separadamente para a gasolina e para o etanol.
Três números diferentes disputam o título de “consumo do seu carro”, e só um deles é de verdade seu. A etiqueta do Inmetro diz 14,7. O painel mostra 13,1. O extrato do cartão e o ponteiro do tanque sugerem outra coisa. Este artigo é sobre o terceiro número — o que sai do seu bolso — e sobre o único jeito de medi-lo com honestidade: dois tanques cheios, um odômetro e o cupom da bomba. A seguir: a fórmula com um exemplo passo a passo, as sete formas como a conta erra, como converter entre km/l, l/100 km e mpg quando um review europeu ou americano usa outra unidade, qual é o intervalo normal em relação à etiqueta do Inmetro — e, porque por aqui quase todo carro é flex, como manter dois diários e usar a regra dos 70% para saber se vale rodar a etanol ou a gasolina.
Três números que não são o seu consumo#
A etiqueta do Inmetro. A cifra combinada do Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE, do Inmetro, com apoio técnico do Conpet) vem de um teste em dinamômetro — o carro sobre rolos, seguindo um ciclo de velocidade padronizado — sem trânsito, sem subida de serra, sem ar-condicionado ligado e sem pressa. Em carro flex, o Inmetro homologa duas cifras separadas, uma rodando a gasolina e outra a etanol, porque são consumos genuinamente diferentes, não a mesma medida em unidades diferentes. É uma ferramenta honesta para comparar carros entre si. Não é uma previsão para o seu trajeto, o seu clima ou o seu pé direito.
O computador de bordo. O carro não mede combustível — ele conta o tempo de abertura dos bicos injetores e estima. No teste da AAA de 2021 com painéis digitais, o erro médio foi de 2,3%, mas um veículo chegou a mostrar 6,4% a mais do que realmente queimou, e só um dos carros testados errou para o lado pessimista; um teste anterior da Edmunds encontrou em média cerca de 5% de otimismo, com um híbrido chegando a 19% a mais. O painel também zera a cada botão apertado, então a sua “média” muitas vezes descreve um único tanque ou uma única viagem. Útil para acompanhar o seu jeito de dirigir em tempo real; inútil como o número com que você planeja o orçamento do mês — e, em carro flex, ele nem sempre percebe a troca de combustível.
A autonomia restante. Uma projeção da mesma estimativa sobre o quanto o sensor de nível acha que sobrou no tanque, com uma margem de segurança embutida: no teste da AAA, todo carro ainda tinha entre 10 e 90 km de autonomia real quando o painel marcava zero. Bom para decidir se você para neste posto ou no próximo; inútil para medir consumo.
A única coisa em toda a cadeia que realmente mede o combustível é a bomba do posto. Ela é aferida pelo Inmetro, carrega o selo de verificação metrológica na própria bomba, e imprime o volume com três casas decimais no cupom fiscal que você já tem em mãos. Tudo a seguir é sobre como usar bem esse número.
O método do tanque cheio, passo a passo#
- Encha até a primeira desligada automática. Deixe o bico desligar sozinho e pendure-o de volta. Não force mais um gole “para arredondar”.
- Anote o odômetro — o total, não o hodômetro parcial (o trip). Uma foto do painel ou uma linha num aplicativo já basta. Este é o ponto de partida; os litros deste primeiro abastecimento não entram na conta.
- Rode normalmente por pelo menos meio tanque. Não mude o seu jeito de dirigir por causa do teste — a ideia é medir o que você realmente faz.
- Abasteça de novo até a primeira desligada, no mesmo ritmo de bico, de preferência no mesmo posto. Anote os litros do cupom (três casas decimais) e o odômetro.
- Divida os quilômetros pelos litros. Odômetro de agora menos odômetro de antes, dividido pelos litros do segundo abastecimento. Esse é o consumo daquele intervalo, em km/l.
- Repita e mantenha um total acumulado. Depois de três ou quatro abastecimentos, divida o total de quilômetros pelo total de litros. Essa cifra é o seu consumo real; os números de cada tanque isolado são só ruído ao redor dela.
Se o seu carro é flex — a imensa maioria da frota brasileira —, vale rodar o método acima duas vezes, em paralelo: um diário para os tanques de gasolina e outro para os de etanol, cada um com a sua própria média acumulada. Misturar os dois numa conta só é o erro número um por aqui — não porque a fórmula muda, mas porque o etanol rende de 25 a 30% menos quilômetros por litro do que a gasolina no mesmo motor, então uma média “combinada” não descreve nenhum dos dois combustíveis de verdade. O Brimly guarda o tipo de combustível de cada abastecimento e calcula as duas médias separadamente por você.
Com as duas médias em mãos, a pergunta “gasolina ou etanol” vira aritmética: o etanol compensa quando custa até cerca de 70% do preço da gasolina no mesmo posto — a chamada «regra dos 70%», um consenso de oficina e posto de combustível, não uma cifra do Inmetro. Motores flex mais modernos, que aproveitam melhor a octanagem do etanol, empurram esse equilíbrio para perto de 75%. Na semana de 6 a 12 de setembro de 2026, com a gasolina comum em média R$ 6,53 e o etanol em R$ 4,04, a razão ficou em 62% — etanol na frente —, mas só a sua própria conta, tanque contra tanque, confirma isso no seu carro.
Calcule seu consumo agora#
Digite os quilômetros entre dois tanques cheios e os litros que entraram no segundo abastecimento. A calculadora devolve a cifra em km/l e nas outras três unidades usadas mundo afora, além de quanto o combustível está custando a cada 100 km, pelo preço que você pagou.
Seu consumo real
- Km por litro
- 13,9 km/l
- l/100 km
- 7,2 l/100 km
- Milhas por galão (EUA)
- 32,6 mpg
- Milhas por galão (Reino Unido)
- 39,2 mpg
- Combustível a cada 100 km
- R$ 47,11
Digite os quilômetros entre dois tanques cheios e os litros que entraram no segundo abastecimento. O cupom fiscal traz os litros com três casas decimais; o odômetro tem os quilômetros. Nada é salvo nem enviado.
Um exemplo passo a passo: por que um tanque só não basta#
Aqui está um diário parecido com um de verdade: um sedan compacto flex, com etiqueta do Inmetro de 14,7 km/l na gasolina em ciclo misto. Todos os abastecimentos foram até a primeira desligada, na mesma rede de postos, e só na gasolina — para isolar o efeito que este exemplo quer mostrar; o etanol fica de fora e entra num diário à parte. No terceiro, um passageiro prestativo “completou” o tanque. Preste atenção nas duas colunas da direita.
| Abastecimento | Odômetro | Km | Litros | Este tanque | Acumulado |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 (ponto de partida) | 84.120 | — | 42,3 | — | — |
| 2 | 84.655 | 535 | 38,6 | 13,9 km/l | 13,9 km/l |
| 3 (com complemento) | 85.140 | 485 | 40,9 | 11,9 km/l | 12,8 km/l |
| 4 | 85.690 | 550 | 37,4 | 14,7 km/l | 13,4 km/l |
| 5 | 86.210 | 520 | 39,1 | 13,3 km/l | 13,4 km/l |
Acumulado = quilômetros rodados desde o abastecimento 1 ÷ litros somados dos abastecimentos 2–5 (2.090 km ÷ 156,0 l). Os litros do abastecimento base nunca entram na conta.
A coluna “este tanque” varia de 11,9 a 14,7 km/l — uma diferença de 20% num carro com o qual nada de especial aconteceu. Os litros extras forçados no terceiro abastecimento fizeram aquele intervalo parecer mais gastador e o seguinte, mais econômico; uma semana de trajetos curtos ou uma viagem longa de estrada produz o mesmo efeito. A coluna acumulada, enquanto isso, já se estabiliza em torno de 13,4 depois do quarto intervalo e quase não se mexe depois disso. É todo o argumento a favor de um diário em vez de um teste isolado: o número do tanque fala sobre o tanque; o número acumulado fala sobre o carro.
Vale ver a aritmética do desvio uma vez. Um abastecimento de 40 litros facilmente varia um litro para mais ou para menos, dependendo da bomba, do ângulo do bico e do instante em que a válvula de boia dispara. Em 500 km, 39 litros dão 12,8 km/l e 41 litros dão 12,2 — uma diferença de 5% na mesma máquina e a mesma condução, antes de qualquer coisa real ter acontecido. Espalhe o mesmo litro por 2.090 km e 156 litros, e ele vira uma ondulação de 0,6%.
Sete erros que distorcem o número#
1. Considerar um abastecimento parcial como intervalo
Colocar R$ 50 num posto que você estava só de passagem tudo bem — mas esse abastecimento não pode fechar um intervalo, porque você não sabe quanto combustível sobrou no tanque. Registre-o, marque como parcial, e deixe o intervalo continuar até o próximo abastecimento até a desligada: os quilômetros dos dois trechos divididos pelos litros dos dois abastecimentos. O Brimly faz isso sozinho — o consumo só é calculado entre dois tanques cheios, e um abastecimento parcial simplesmente estica o intervalo.
2. Completar o tanque depois da desligada automática
O litro a mais forçado depois que o bico desliga é a maior fonte de ruído por tanque, como mostrou o exemplo acima — e de quebra encharca o canister (o filtro de carvão do sistema de recuperação de vapores), de onde vêm os códigos da família P0455 da nossa lista de códigos da injeção. O método não exige um tanque literalmente cheio; exige o mesmo nível toda vez, e a primeira desligada é o único ponto repetível.
3. Trocar de bomba, de vazão do bico ou de inclinação do terreno
Bicos desligam em níveis diferentes: uma bomba de vazão alta desliga mais cedo do que uma lenta, e um carro estacionado com o nariz para cima aceita mais combustível antes de o gargalo encher. Segure a alavanca sempre no mesmo estágio e, quando puder, abasteça no mesmo posto. As bombas brasileiras são aferidas pelo Inmetro e carregam o selo de verificação — mas o método não serve para flagrar um único desvio pequeno do medo clássico da «bomba baixa»; o que ele mostra é um padrão: se o consumo acumulado numa rede fica estável uns 5% acima do de outra, com a mesma condução, aí sim vale desconfiar do posto, não do carro.
4. Confiar no hodômetro parcial que esqueceu de zerar
O trip A é conveniente até o dia em que não foi zerado na bomba — e depois não tem como saber. O odômetro não pode ser esquecido. Anote a quilometragem total a cada abastecimento e subtraia; custa dez segundos e elimina uma classe inteira de erros. O odômetro também costuma marcar de 1 a 3% a mais por causa do tamanho e do desgaste dos pneus — um desvio fixo, não ruído, que favorece o seu km/l de forma pequena e constante.
5. Julgar o carro por um único tanque
“Fiz 15 na estrada para a praia” é um fato sobre a viagem para a praia. Nela cabe uma desligada, um clima, uma estrada. Espere três ou quatro intervalos antes de tirar conclusões, e nunca compare um tanque isolado com a etiqueta do Inmetro. Uma cifra acumulada em pelo menos 1.000 km é o mínimo que merece ser chamado de consumo do carro.
6. Deixar um abastecimento de fora do registro
Se outra pessoa abasteceu o carro, ou você esqueceu de anotar, o próximo intervalo erra silenciosamente: os quilômetros estão lá, os litros não, e o carro parece espetacular. Marque a lacuna — “falta um abastecimento antes deste” — e exclua esse intervalo da média. Um diário que faz isso direito vale mais do que um diário mais longo que não faz.
7. Misturar km/l, l/100 km e mpg — e gasolina com etanol na mesma média
Uma revisão europeia cita 7 litros por 100 km, que parece um número totalmente diferente de “14 km/l” — mas é a mesma cifra, só invertida, porque o l/100 km conta combustível por distância e o km/l conta distância por combustível. Um review americano fala em “33 mpg”, que usa o galão americano de 3,785 litros; o mpg britânico usa o galão imperial, 20% maior. E, por aqui, o erro mais comum não é de unidade: é somar tanques de gasolina e tanques de etanol numa única média “do carro”, quando são dois consumos genuinamente diferentes — misturar os dois é como comparar km/l com l/100 km sem converter. Cada conversão é uma divisão só, a tabela abaixo tem todas, mas cada uma delas já convenceu alguém de que o carro estava quebrado.
Convertendo entre km/l, l/100 km e mpg#
Quilômetros por litro conta distância por combustível, então um número maior é melhor. Litros por 100 km conta combustível por distância, então um número maior é pior — por isso as duas unidades se relacionam por uma divisão, não por uma multiplicação, e uma melhora de “10%” não tem o mesmo tamanho nas duas. As constantes: l/100 km = 100 ÷ km/l; mpg (EUA) = 235,2 ÷ l/100 km; mpg (Reino Unido) = 282,5 ÷ l/100 km.
| Km/l | l/100 km | mpg EUA | mpg Reino Unido |
|---|---|---|---|
| 8 | 12,5 | 18,8 | 22,6 |
| 10 | 10,0 | 23,5 | 28,2 |
| 12 | 8,3 | 28,2 | 33,9 |
| 15 | 6,7 | 35,3 | 42,4 |
| 18 | 5,6 | 42,3 | 50,8 |
| 20 | 5,0 | 47,0 | 56,5 |
| 25 | 4,0 | 58,8 | 70,6 |
Galão americano = 3,785 l, galão imperial = 4,546 l. Repare que o mesmo salto de 2 km/l vale tamanhos bem diferentes: de 8 para 10 km/l você economiza 2,5 l a cada 100 km, mas de 18 para 20 apenas 0,6 l — o km/l comprime os ganhos de um carro já econômico e amplia os de um carro gastador.
Qual é o intervalo normal em relação à etiqueta do Inmetro#
Não existe no Brasil uma medição oficial e sistemática desse intervalo, como passou a existir na União Europeia com os medidores de consumo instalados de fábrica em todo carro novo (OBFCM). O que existem são dois pontos de referência de fora, e um raciocínio por analogia. O primeiro relatório da Comissão Europeia com dados reais desses medidores encontrou um consumo real de gasolina 21% acima do valor de laboratório (WLTP), e diesel 17% acima. Nos EUA, a Consumer Reports comparou seus próprios testes de estrada com as etiquetas da EPA e achou uma diferença média pequena — cerca de 3% —, embora híbridos fiquem cerca de 9% abaixo do rótulo.
Por aqui, sem um estudo equivalente, a prática de quem mede é tratar um intervalo de 15 a 25% abaixo do número do Inmetro como normal, não como sinal de problema — mais perto do caso europeu do que do americano, já que o ciclo de homologação, mesmo atualizado, ainda é medido em condições mais controladas do que o trânsito real de uma cidade brasileira. É por isso que o Brimly, ao mostrar a cifra de fábrica atrás do seu próprio histórico, pinta essa faixa como um corredor esperado, e não colore o gráfico como se fosse uma falha — separadamente para a gasolina e para o etanol, já que são duas etiquetas diferentes no mesmo carro.
Na prática: dentro de 10–15% do número combinado do Inmetro é carro saudável e motorista comum. Entre 15 e 25% vale olhar o padrão de uso — muito trajeto curto? muito ar-condicionado no trânsito parado? — antes de suspeitar de mecânica. Acima de 25%, sustentado por vários tanques e sem explicação pela troca de combustível, é o carro dizendo alguma coisa, e a última seção é sobre como ouvir.
Híbridos, plug-in e elétricos: o que muda#
Um híbrido comum é medido exatamente como qualquer carro a combustão — a bateria só é carregada pelo motor, então cada quilômetro ainda sai do tanque. No Brasil, ao menos um modelo homologado já é flex também no lado híbrido, aceitando gasolina e etanol no motor a combustão; a maioria dos híbridos vendidos por aqui ainda roda só a gasolina. Espere uma diferença maior em relação à etiqueta em trajetos curtos e com o ar-condicionado no máximo, e uma diferença menor no trânsito parado, onde o híbrido ganha o seu sustento.
Um plug-in hybrid precisa de dois diários, porque duas fontes de energia alimentam os mesmos quilômetros: litros no posto e quilowatts-hora na tomada. Divida os quilômetros por cada fonte separadamente e guarde os dois — um PHEV rodando só a gasolina raramente é mais econômico do que o híbrido comum equivalente, e a cifra honesta de “quanto custa cada quilômetro” precisa somar a eletricidade. Qualquer km/l isolado de um plug-in é uma afirmação sobre a frequência com que ele foi carregado, não sobre o carro.
Um elétrico usa o mesmo método com kWh em vez de litros: a energia entregue pelo carregador (não a estimativa do próprio carro, pela mesma razão do computador de bordo) dividida pelos quilômetros dá kWh a cada 100 km. Perdas de 10 a 15% entre a tomada e a bateria são combustível de verdade, que você pagou; meça pelo medidor do carregador. O Brimly trata o kWh como uma unidade de combustível por esse motivo — um elétrico ou um plug-in registra as recargas ao lado dos quilômetros, como qualquer abastecimento.
Transformando o número em dinheiro#
Km/l é uma unidade estranha para fazer orçamento; custo a cada 100 km não é. Com a gasolina comum a R$ 6,53 na semana de 6 a 12 de setembro de 2026, um carro fazendo 13,4 km/l gasta cerca de R$ 48,70 a cada 100 km (7,46 l/100 km × R$ 6,53); um SUV a 10 km/l gasta cerca de R$ 65,30 — uma diferença de R$ 16,60 a cada 100 km, ou aproximadamente R$ 2.500 por ano rodando 15.000 km. Essa é também a forma honesta de comparar dois carros usados entre os quais você está decidindo, ou de checar se vale a pena abastecer com aditivada ou premium num motor que não exige: o ganho de consumo precisaria ser grande o bastante para cobrir a diferença de preço por litro, e raramente cobre.
Para uma viagem, a mesma cifra multiplicada pela distância é o orçamento de combustível. A nossa calculadora de custo de viagem gratuita traça a rota e faz essa multiplicação com o seu próprio consumo; use a cifra real do diário, não a do Inmetro, e o valor com que você chegar vai bater com os cupons.
Quando o número muda: o que ele está dizendo#
Um diário mantido por um ano tem uma segunda utilidade além de resolver discussão de bar: a cifra acumulada vira uma base, e um desvio dela é informação. Mais ou menos em ordem de probabilidade:
- Combustível. Trocar de gasolina para etanol (ou o contrário) muda o número em 25 a 30% de uma hora para outra — física do combustível, não defeito — e a proporção de etanol anidro misturado à gasolina comum (hoje em torno de 30%) também varia um pouco a cada resolução do governo, o que desvia levemente até o consumo “só de gasolina”. No Sul, em manhãs de inverno bem frias, some ainda um pequeno efeito de partida a frio — pequeno perto da troca de combustível, mas real.
- Padrão de condução. Um emprego novo a cinco quilômetros de casa pode custar 20% sozinho — o motor nunca esquenta direito. O mesmo vale para o novo hábito de manter 120 na rodovia. Como o estilo de direção afeta o consumo põe números em cada hábito.
- Pneus. Pressão 3–5 psi abaixo do recomendado custa cerca de 2–4%; um jogo de pneus off-road agressivos custa bem mais. Confira a calibragem uma vez por mês, com os pneus frios.
- Manutenção. Filtro de ar entupido, velas gastas, sonda lambda preguiçosa, termostato emperrado aberto — cada um deles aparece no diário semanas antes de virar luz no painel. O checklist de revisão por quilometragem é a lista de suspeitos; o relatório da CarMD de 2026 aponta uma sonda lambda com defeito, se ignorada, custando até 40% a mais de consumo.
- Uma falha de verdade. Uma queda sustentada de 20–25% sem explicação pelos quatro pontos anteriores é um pedido de diagnóstico. Leia os códigos — o nosso guia dos dez códigos de injeção mais comuns explica o que cada um significa para o consumo — e leve o diário até a oficina: “o carro caiu de 14 para 11 km/l em seis semanas a partir de março” é um começo de conversa bem melhor do que “acho que está bebendo mais”.
Se você tem automático e quer o lado prático da mesma história, reunimos o que de fato reduz o consumo num câmbio automático; e para ter uma ideia de como fica esse mesmo intervalo com o Inmetro num carro bem popular por aqui, o desmonte do consumo real do Toyota RAV4 e o nosso catálogo de modelos (em inglês) por trás do aplicativo listam a cifra de fábrica modelo a modelo.
Perguntas frequentes#
Como calcular o consumo real do meu carro em km/l?
Encha o tanque até a desligada automática do bico e anote o odômetro. Rode normalmente. No abastecimento seguinte, encha de novo até a primeira desligada e anote os litros do cupom fiscal e o odômetro. Os quilômetros rodados divididos pelos litros abastecidos são o seu consumo daquele intervalo, em km/l. Repita por três ou quatro tanques e divida o total de quilômetros pelo total de litros — essa cifra acumulada é o seu consumo real, separada por combustível se o carro for flex.
O computador de bordo do carro engana?
Um pouco, e quase sempre a favor do carro. No teste da AAA de 2021 o erro médio dos painéis digitais foi de 2,3%, e o pior carro chegou a mostrar 6,4% a mais do que realmente queimou; um teste da Edmunds encontrou em média cerca de 5% de otimismo, com híbridos e diesels chegando a 15–19%. Duas medições de tanque cheio mostram exatamente o quanto o painel do seu carro específico está exagerando — e ele nem sempre percebe quando você troca de gasolina para etanol.
Por que meu consumo real é menor que o do Inmetro?
Porque a etiqueta do Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE, do Inmetro) vem de um teste em laboratório, sobre rolos, sem trânsito, subida de serra, ar-condicionado ligado ou pressa. Não existe uma medição oficial brasileira do tamanho médio dessa diferença, mas pelos dois pontos de referência que existem lá fora — consumo real 21% acima do declarado na União Europeia, e cerca de 3% de diferença nos EUA segundo a Consumer Reports — um intervalo de 15 a 25% abaixo do número do Inmetro é considerado normal por aqui, tanto na gasolina quanto no etanol.
Quantos quilômetros preciso rodar para o número ser confiável?
No mínimo três tanques cheios, de preferência 1.000 km ou mais, do mesmo combustível. Um único tanque pode variar 4–5% só pelo ponto em que a bomba desligou, e uma semana de trajetos curtos ou uma viagem longa de estrada desvia o número ainda mais. A média acumulada de vários tanques converge para o consumo real; os números de cada tanque isolado, nunca.
Devo completar até a desligada automática ou “topar” o tanque?
Sempre até a primeira desligada automática. Completar depois disso acrescenta uma quantidade imprevisível de combustível, pode encharcar o canister do sistema de recuperação de vapores e acender a luz de injeção, além de fazer o intervalo seguinte parecer mais econômico e este, mais gastador. O método não exige um tanque literalmente cheio — exige o mesmo nível toda vez.
Como converter km/l para l/100 km e mpg?
Divida 100 pelo km/l para chegar em l/100 km, e vice-versa: 7,5 l/100 km é 100 ÷ 7,5 = 13,3 km/l. Para milhas por galão americano (mpg), divida 235,2 pelo l/100 km: 7,5 l/100 km equivale a 31,4 mpg. O mpg britânico usa um galão 20% maior — multiplique o mpg americano por 1,2 para comparar com uma revisão do Reino Unido.
Gasolina ou etanol: qual compensa mais no meu carro flex?
Compare o preço por litro do etanol com o da gasolina no mesmo posto: se o etanol custa até cerca de 70% do preço da gasolina, ele compensa, porque rende de 25 a 30% menos por litro — é a chamada regra dos 70%. Em motores flex mais modernos, mais eficientes com etanol, esse ponto de equilíbrio pode chegar a 75%. A conta muda de carro para carro, então vale calcular com o seu próprio consumo real de cada combustível, não com a média que circula por aí.
Por que o consumo muda tanto quando troco de combustível?
Porque são dois combustíveis com energia diferente por litro, não uma variação do mesmo carro: o etanol rende de 25 a 30% menos quilômetros por litro do que a gasolina no mesmo motor, então cair de 12 km/l na gasolina para 9 km/l no etanol é esperado, não um defeito. A proporção de etanol anidro misturada à gasolina comum (hoje em torno de 30%) também muda um pouco a cada resolução do governo, o que desvia levemente até o consumo “só de gasolina”. Por isso vale manter dois diários separados, um por combustível, em vez de uma média só.
O resumo#
Quilômetros entre duas desligadas, divididos pelos litros do segundo abastecimento; repita até a cifra acumulada parar de se mexer — separadamente para gasolina e para etanol se o carro for flex. Ignore o computador de bordo para levar a contagem, ignore a etiqueta do Inmetro para prever a sua conta, e ignore qualquer tanque isolado. Encha até a primeira desligada, use o odômetro, marque os abastecimentos parciais e os esquecidos, e converta unidades com uma divisão quando alguém citar l/100 km ou mpg. Faça isso por uma estação inteira e você terá um número com o qual ninguém consegue discutir — e uma base que vai avisar sobre um termostato emperrado antes do painel. O Brimly mantém esse diário no seu iPhone: abastecimento a partir da nota em três segundos, a conta feita só entre tanques cheios, a cifra do Inmetro ao lado da sua tendência — separada por combustível — e um aviso quando o número começa a subir.